{"id":26,"date":"2018-08-02T15:18:09","date_gmt":"2018-08-02T18:18:09","guid":{"rendered":"http:\/\/mino.com.br\/?p=26"},"modified":"2018-08-02T15:18:09","modified_gmt":"2018-08-02T18:18:09","slug":"carta-sobre-a-felicidade-epicuro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mino.com.br\/?p=26","title":{"rendered":"Carta sobre a felicidade &#8211; Epicuro"},"content":{"rendered":"<p>\t(a Meneceu)<\/p>\n<h4>\t<strong>Epicuro envia suas sauda&ccedil;&otilde;es a Meneceu<\/strong><\/h4>\n<p>\tQue ningu&eacute;m hesite em se dedicar &agrave; filosofia enquanto jovem, nem se canse de faz&ecirc;-lo depois de velho, porque ningu&eacute;m jamais &eacute; demasiado jovem ou demasiado velho para alcan&ccedil;ar a sa&uacute;de do esp&iacute;rito. Quem afirma que a hora de dedicar-se &agrave; filosofia ainda n&atilde;o chegou, ou que ela j&aacute; passou &eacute; como se dissesse que ainda n&atilde;o chegou ou que j&aacute; passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia &eacute; &uacute;til tanto ao jovem quanto ao velho: para quem est&aacute; envelhecendo sentir-se rejuvenescer atrav&eacute;s da grata recorda&ccedil;&atilde;o das coisas que j&aacute; se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que est&atilde;o por vir; &eacute; necess&aacute;rio, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, j&aacute; que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcan&ccedil;&aacute;-la.<\/p>\n<p>\tPratica e cultiva ent&atilde;o aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.<\/p>\n<p>\tEm primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percep&ccedil;&atilde;o comum de divindade, n&atilde;o atribuas a ela nada que seja incompat&iacute;vel com a sua imortalidade, nem inadequado com a sua imortalidade, nem inadequado &agrave; sua bem-aventuran&ccedil;a; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade.<\/p>\n<p>\tOs deuses de fato existem e &eacute; evidente o conhecimento que temos deles; j&aacute; a imagem que deles faz a maioria das pessoas, essa n&atilde;o existe: as pessoas n&atilde;o costumam preservar a no&ccedil;&atilde;o que t&ecirc;m dos deuses. &Iacute;mpio n&atilde;o &eacute; quem rejeita os deuses em que a maioria cr&ecirc;, mas sim quem atribui aos deuses os falsos ju&iacute;zos dessa maioria. Com efeito, os ju&iacute;zos do povo a respeito dos deuses n&atilde;o se baseiam em no&ccedil;&otilde;es inatas, mas em opini&otilde;es falsas. Da&iacute; a cren&ccedil;a de que eles causam os maiores malef&iacute;cios aos maus e os maiores benef&iacute;cios aos bons. Irmanados pelas suas pr&oacute;prias virtudes, eles s&oacute; aceitam a conviv&ecirc;ncia com os seus semelhantes e consideram estranho tudo que seja diferente deles.<\/p>\n<p>\tAcostuma-te &agrave; ideia de que a morte para n&oacute;s n&atilde;o &eacute; nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensa&ccedil;&otilde;es, e a morte &eacute; justamente a priva&ccedil;&atilde;o das sensa&ccedil;&otilde;es. A consci&ecirc;ncia clara de que a morte n&atilde;o significa nada para n&oacute;s proporciona a frui&ccedil;&atilde;o da vida ef&ecirc;mera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade.<\/p>\n<p>\tN&atilde;o existe nada de terr&iacute;vel na vida para quem est&aacute; perfeitamente convencido de que n&atilde;o h&aacute; nada de terr&iacute;vel em deixar de viver. &Eacute; tolo portanto quem diz ter medo da morte, n&atilde;o porque a chegada desta lhe trar&aacute; sofrimento, mas porque o aflige a pr&oacute;pria espera: aquilo que n&atilde;o nos perturba quando presente n&atilde;o deveria afligir-nos enquanto est&aacute; sendo esperado.<\/p>\n<p>\tEnt&atilde;o, o mais terr&iacute;vel de todos os males, a morte, n&atilde;o significa nada pra n&oacute;s, justamente porque, quando estamos vivos, &eacute; a morte que n&atilde;o est&aacute; presente; ao contr&aacute;rio, quando a morte est&aacute; presente, n&oacute;s &eacute; que n&atilde;o estamos. A morte, portanto, n&atilde;o &eacute; nada, nem para os vivos, nem para os mortos, j&aacute; que para aqueles ela n&atilde;o existe, ao passo que estes n&atilde;o est&atilde;o mais aqui. E, no entanto, a maioria das pessoas ora foge da morte como se fosse o maior dos males, ora a deseja como descanso dos males da vida.<\/p>\n<p>\tO s&aacute;bio, por&eacute;m, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver n&atilde;o &eacute; um fardo e n&atilde;o-viver n&atilde;o &eacute; um mal.<\/p>\n<p>\tAssim como opta pela comida mais saborosa e n&atilde;o pela mais abundante, do mesmo modo ele colhe os doces frutos de um tempo bem vivido, ainda que breve.<\/p>\n<p>\tQuem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem n&atilde;o passa de um tolo, n&atilde;o s&oacute; pelo que a vida tem de agrad&aacute;vel para ambos, mas tamb&eacute;m porque se deve ter exatamente o mesmo cuidado em honestamente viver e em honestamente morrer. Mas pior ainda &eacute; aquele que diz: bom seria n&atilde;o ter nascido, mas, uma vez nascido, transpor o mais depressa poss&iacute;vel as portas do Hades.<\/p>\n<p>\tSe ele diz isso com plena convic&ccedil;&atilde;o, por que n&atilde;o se vai desta vida? Pois &eacute; livre para faz&ecirc;-lo, se for esse realmente seu desejo; mas se o disse por brincadeira, foi um fr&iacute;volo em falar de coisas que brincadeira n&atilde;o admitem.<\/p>\n<p>\tNunca devemos nos esquecer de que o futuro n&atilde;o &eacute; nem totalmente nosso, nem totalmente n&atilde;o-nosso, para n&atilde;o sermos obrigados a esper&aacute;-lo como se estivesse por vir com toda certeza, nem nos desesperarmos como se n&atilde;o estivesse por vir jamais.<\/p>\n<p>\tConsideremos tamb&eacute;m que, dentre os desejos, h&aacute; os que s&atilde;o naturais e os que s&atilde;o in&uacute;teis; dentre os naturais, h&aacute; uns que s&atilde;o necess&aacute;rios e outros, apenas naturais; dentre os necess&aacute;rios, h&aacute; alguns que s&atilde;o fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a pr&oacute;pria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda recusa para a sa&uacute;de do corpo e para a serenidade do esp&iacute;rito, visto que esta &eacute; a finalidade da vida feliz: em raz&atilde;o desse fim praticamos todas as nossas a&ccedil;&otilde;es, para nos afastarmos da dor e do medo.<\/p>\n<p>\tUma vez que tenhamos atingido esse estado, toda a tempestade da alma se aplaca, e o ser vivo n&atilde;o tendo que ir em busca de algo que lhe falta, nem procurar outra coisa a n&atilde;o ser o bem da alma e do corpo, estar&aacute; satisfeito. De fato, s&oacute; sentimos necessidade do prazer quando sofremos pela sua aus&ecirc;ncia; ao contr&aacute;rio, quando n&atilde;o sofremos, essa necessidade n&atilde;o se faz sentir.<\/p>\n<p>\t&Eacute; por essa raz&atilde;o que afirmamos que o prazer &eacute; o in&iacute;cio e o fim de uma vida feliz. Com efeito, n&oacute;s o identificamos como o bem primeiro e inerente ao ser humano, em raz&atilde;o dele praticamos toda escolha e toda recusa, e a ele chegamos escolhendo todo bem de acordo com a distin&ccedil;&atilde;o entre prazer e dor.<\/p>\n<p>\tEmbora o prazer seja nosso bem primeiro e inato, nem por isso escolhemos qualquer prazer: h&aacute; ocasi&otilde;es em que evitamos muitos prazeres, quando deles nos adv&eacute;m efeitos o mais das vezes desagrad&aacute;veis; ao passo que consideramos muitos sofrimentos prefer&iacute;veis aos prazeres, se um prazer maior advier depois de suportarmos essas dores por muito tempo. Portanto, todo prazer constitui um bem por sua pr&oacute;pria natureza; n&atilde;o obstante isso, nem todos s&atilde;o escolhidos; do mesmo modo, toda dor &eacute; um mal, mas nem todas devem ser sempre evitadas. Conv&eacute;m, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o crit&eacute;rio dos benef&iacute;cios e dos danos. H&aacute; ocasi&otilde;es em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contr&aacute;rio, um mal como se fosse um bem.<\/p>\n<p>\tConsideramos ainda a autossufici&ecirc;ncia um grande bem; n&atilde;o que devamos nos satisfazer com pouco, mas para nos contentarmos com esse pouco caso n&atilde;o tenhamos o muito, honestamente convencidos de que desfrutam melhor a abund&acirc;ncia os que menos dependem dela; tudo o que &eacute; f&aacute;cil de conseguir; dif&iacute;cil &eacute; tudo o que &eacute; in&uacute;til.<\/p>\n<p>\tOs alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta: p&atilde;o e &aacute;gua produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem deles necessita.<\/p>\n<p>\tHabituar-se &agrave;s coisas simples, a um modo de vida n&atilde;o luxuoso, portanto, n&atilde;o s&oacute; &eacute; conveniente para a sa&uacute;de, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos per&iacute;odos em que conseguimos levar uma exist&ecirc;ncia rica, predisp&otilde;e o nosso &acirc;nimo para melhor aproveita-la, e nos prepara para enfrentar sem temos as vicissitudes da sorte.<\/p>\n<p>\tQuando ent&atilde;o dizemos que o fim &uacute;ltimo &eacute; o prazer, n&atilde;o nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou n&atilde;o concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que &eacute; aus&ecirc;ncia de sofrimentos f&iacute;sicos e de perturba&ccedil;&otilde;es da alma. N&atilde;o s&atilde;o, pois, bebidas nem banquetes cont&iacute;nuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de uma mesa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejei&ccedil;&atilde;o e que remova as opini&otilde;es falsas em virtude das quais uma imensa perturba&ccedil;&atilde;o toma conta dos esp&iacute;ritos. De todas essas coisas, a prud&ecirc;ncia &eacute; o princ&iacute;pio e o supremo bem, raz&atilde;o pela qual ela &eacute; mais preciosa do que a pr&oacute;pria filosofia; &eacute; dela que originaram todas as demais virtudes; &eacute; ela que nos ensina que n&atilde;o existe vida feliz sem prud&ecirc;ncia, beleza e justi&ccedil;a, e que n&atilde;o existe prud&ecirc;ncia, beleza e justi&ccedil;a sem felicidade. Porque as virtudes est&atilde;o intimamente ligadas &agrave; felicidade, e a felicidade &eacute; insepar&aacute;vel delas.<\/p>\n<p>\tNa tua opini&atilde;o, ser&aacute; que pode existir algu&eacute;m mais feliz do que o s&aacute;bio, que tem um ju&iacute;zo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo absolutamente indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o bem supremo est&aacute; nas coisas simples e f&aacute;ceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou s&oacute; nos causa sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o senhor de tudo, j&aacute; que as coisas acontecem ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a necessidade &eacute; incoerc&iacute;vel, o acaso, inst&aacute;vel, enquanto nossa vontade &eacute; livre, raz&atilde;o pela qual nos acompanham a censura e o louvor?<\/p>\n<p>\tMais vale aceitar o mito dos deuses, do que ser escravo do destino dos naturalistas: o mito pelo menos nos oferece a esperan&ccedil;a do perd&atilde;o dos deuses atrav&eacute;s das homenagens que lhes prestamos, ao passo que o destino &eacute; uma necessidade inexor&aacute;vel.<\/p>\n<p>\tEntendendo que a sorte n&atilde;o &eacute; uma divindade, como a maioria das pessoas acredita (pois um deus n&atilde;o faz nada ao acaso), nem algo incerto, o s&aacute;bio n&atilde;o cr&ecirc; que ela proporcione aos homens nenhum bem ou nenhum mal que sejam fundamentais para uma vida feliz, mas, sim, que dela pode surgir o in&iacute;cio de grandes bens e de grandes males. A seu ver, &eacute; prefer&iacute;vel ser desafortunado e s&aacute;bio, a ser afortunado e tolo; na pr&aacute;tica, &eacute; melhor que um bom projeto n&atilde;o chegue a bom termo, do que chegue a ter &ecirc;xito um projeto mau.<\/p>\n<p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(a Meneceu) Epicuro envia suas sauda&ccedil;&otilde;es a Meneceu Que ningu&eacute;m hesite em se dedicar &agrave; filosofia enquanto jovem, nem se canse de faz&ecirc;-lo depois de velho, porque ningu&eacute;m jamais &eacute; demasiado jovem ou demasiado velho para alcan&ccedil;ar a sa&uacute;de do esp&iacute;rito. 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