{"id":31,"date":"2018-08-02T15:34:02","date_gmt":"2018-08-02T18:34:02","guid":{"rendered":"http:\/\/mino.com.br\/?p=31"},"modified":"2018-08-02T15:34:02","modified_gmt":"2018-08-02T18:34:02","slug":"os-sete-saberes-necessarios-a-educacao-do-futuro-edgar-morin","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/mino.com.br\/?p=31","title":{"rendered":"Os sete saberes necess\u00e1rios \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro (Edgar Morin)"},"content":{"rendered":"<div>\n<div><b><font size=\"6\">Os sete saberes necess\u00e1rios\u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro. <\/font><\/b><\/div>\n<div><b><font size=\"5\">Edgar Morin. <\/font><\/b><\/div>\n<div>&#160;<\/div>\n<div>Os sete saberes necess\u00e1rios \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro n\u00e3o t\u00eam nenhum programa<\/div>\n<div>educativo, escolar ou universit\u00e1rio. Ali\u00e1s, n\u00e3o est\u00e3o concentrados no prim\u00e1rio, nem no<\/div>\n<div>secund\u00e1rio, nem no ensino universit\u00e1rio, mas abordam problemas espec\u00edficos para cada um<\/div>\n<div>desses n\u00edveis. Eles dizem respeito aos setes buracos negros da educa\u00e7\u00e3o, completamente<\/div>\n<div>ignorados, subestimados ou fragmentados nos programas educativos. Programas esses que,<\/div>\n<div>na minha opini\u00e3o, devem ser colocados no centro das preocupa\u00e7\u00f5es sobre a forma\u00e7\u00e3o dos<\/div>\n<div>jovens, futuros cidad\u00e3os.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">O Conhecimento. <\/font><\/b><\/div>\n<div>O primeiro buraco negro diz respeito ao conhecimento. Naturalmente, o ensino<\/div>\n<div>fornece conhecimento, fornece saberes. Por\u00e9m, apesar de sua fundamental import\u00e2ncia,<\/div>\n<div>nunca se ensina o que \u00e9, de fato, o conhecimento. E sabemos que os maiores problemas<\/div>\n<div>neste caso s\u00e3o o erro e a ilus\u00e3o.<\/div>\n<div>Ao examinarmos as cren\u00e7as do passado, conclu\u00edmos que a maioria cont\u00e9m erros e<\/div>\n<div>ilus\u00f5es. Mesmo quando pensamos em vinte anos atr\u00e1s, podemos constatar como erramos e<\/div>\n<div>nos iludimos sobre o mundo e a realidade. E por que isso \u00e9 t\u00e3o importante? Porque o<\/div>\n<div>conhecimento nunca \u00e9 um reflexo ou espelho da realidade. O conhecimento \u00e9 sempre uma<\/div>\n<div>tradu\u00e7\u00e3o, seguida de uma reconstru\u00e7\u00e3o. Mesmo no fen\u00f4meno da percep\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do qual<\/div>\n<div>os olhos recebem est\u00edmulos luminosos que s\u00e3o transformados, decodificados, transportados<\/div>\n<div>a um outro c\u00f3digo, que transita pelo nervo \u00f3tico, atravessa v\u00e1rias partes do c\u00e9rebro para,<\/div>\n<div>enfim, transformar aquela informa\u00e7\u00e3o primeira em percep\u00e7\u00e3o. A partir deste exemplo,<\/div>\n<div>podemos concluir que a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 uma reconstru\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<div>Tomemos um outro exemplo de percep\u00e7\u00e3o constante: a imagem do ponto de vista<\/div>\n<div>da retina. As pessoas que est\u00e3o pr\u00f3ximas parecem muito maiores do que aquelas que est\u00e3o<\/div>\n<div>mais distantes, pois \u00e0 dist\u00e2ncia, o c\u00e9rebro n\u00e3o realiza o registro e termina por atribuir uma<\/div>\n<div>dimens\u00e3o id\u00eantica para todas as pessoas. Assim como os raios ultravioletas e<\/div>\n<div>infravermelhos que n\u00f3s n\u00e3o vemos, mas sabemos que est\u00e3o a\u00ed e nos imp\u00f5em uma vis\u00e3o<\/div>\n<div>segundo as suas incid\u00eancias. Portanto, temos percep\u00e7\u00f5es, ou seja, reconstru\u00e7\u00f5es, tradu\u00e7\u00f5es<\/div>\n<div>da realidade. E toda tradu\u00e7\u00e3o comporta o risco de erro. Como dizem os italianos<\/div>\n<div>&#8220;tradotore\/traditore&#8221;.<\/div>\n<div>Tamb\u00e9m sabemos que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a intr\u00ednseca entre uma percep\u00e7\u00e3o e<\/div>\n<div>uma alucina\u00e7\u00e3o. Por exemplo: se tenho uma alucina\u00e7\u00e3o e vejo Napole\u00e3o ou J\u00falio C\u00e9sar,<\/div>\n<div>n\u00e3o h\u00e1 nada que me diga que estou enganado, exceto o fato de saber que eles est\u00e3o mortos.<\/div>\n<div>S\u00e3o os outros que v\u00e3o me dizer se o que vejo \u00e9 verdade ou n\u00e3o. Quero dizer com isso que<\/div>\n<div>estamos sempre amea\u00e7ados pela alucina\u00e7\u00e3o. At\u00e9 nos processos de leitura isto acontece.<\/div>\n<div>N\u00f3s sabemos que n\u00e3o seguimos a linha do que est\u00e1 escrito, pois, \u00e0s vezes, nossos olhos<\/div>\n<div>saltam de uma palavra para outra e reconstr\u00f3i o conjunto de uma maneira quase<\/div>\n<div>alucinat\u00f3ria. Neste momento, \u00e9 o nosso esp\u00edrito que colabora com o que n\u00f3s lemos. E n\u00e3o<\/div>\n<div>reconhecemos os erros porque deslizamos neles. O mesmo acontece, por exemplo, quando<\/div>\n<div>h\u00e1 um acidente de carro. As vers\u00f5es e as vis\u00f5es do acidente s\u00e3o completamente diferentes,<\/div>\n<div>principalmente pela emo\u00e7\u00e3o e pelo fato das pessoas estarem em \u00e2ngulos diferentes.<\/div>\n<div>No plano hist\u00f3rico h\u00e1 erros, se me permitem o jogo de palavras, hist\u00e9ricos.<\/div>\n<div>Tomemos um exemplo um pouco distante de n\u00f3s: os debates sobre a Primeira Guerra<\/div>\n<div>Mundial. Uma \u00e9poca em que a Fran\u00e7a e a Alemanha tinham partidos socialistas fortes,<\/div>\n<div>potentes e muito pacifistas, e que, evidentemente, eram contr\u00e1rios \u00e0 guerra que se<\/div>\n<div>anunciava. Mas, a partir do momento em que se desencadeou a guerra, os dois partidos se<\/div>\n<div>lan\u00e7aram, massivamente a uma campanha de propaganda, cada um imputando ao outro os<\/div>\n<div>atos mais ign\u00f3beis. Isto durou at\u00e9 o fim da guerra. Hoje, podemos constatar com os eventos<\/div>\n<div>tr\u00e1gicos do Oriente M\u00e9dio a mesma maneira de tratar a informa\u00e7\u00e3o. Cada um prefere<\/div>\n<div>camuflar a parte que lhe \u00e9 desvantajosa para colocar em relevo a parte criminosa do outro.<\/div>\n<div>Este problema se apresenta de uma maneira percept\u00edvel e muito evidente, porque as<\/div>\n<div>tradu\u00e7\u00f5es e as reconstru\u00e7\u00f5es s\u00e3o tamb\u00e9m um risco de erro e muitas vezes o maior erro \u00e9<\/div>\n<div>pensar que a id\u00e9ia \u00e9 a realidade. E tomar a id\u00e9ia como algo real \u00e9 confundir o mapa com o<\/div>\n<div>terreno.<\/div>\n<div>Outras causas de erro s\u00e3o as diferen\u00e7as culturais, sociais e de origem. Cada um<\/div>\n<div>pensa que suas id\u00e9ias s\u00e3o as mais evidentes e esse pensamento leva a id\u00e9ias normativas.<\/div>\n<div>Aquelas que n\u00e3o est\u00e3o dentro desta norma, que n\u00e3o s\u00e3o consideradas normais, s\u00e3o julgadas<\/div>\n<div>como um desvio patol\u00f3gico e s\u00e3o taxadas como rid\u00edculas. Isso n\u00e3o ocorre somente no<\/div>\n<div>dom\u00ednio das grandes religi\u00f5es ou das ideologias pol\u00edticas, mas tamb\u00e9m das ci\u00eancias.<\/div>\n<div>Quando Watson e Crick decodificaram a estrutura do c\u00f3digo gen\u00e9tico, o DNA (\u00e1cido<\/div>\n<div>desoxirribonucl\u00e9ico), surpreenderam e escandalizaram a maioria dos bi\u00f3logos, que jamais<\/div>\n<div>imaginavam que isto poderia ser transcrito em mol\u00e9culas qu\u00edmicas. Foi preciso muito<\/div>\n<div>tempo para que essas id\u00e9ias pudessem ser aceitas.<\/div>\n<div>Na realidade, as id\u00e9ias adquirem consist\u00eancia como os deuses nas religi\u00f5es. \u00c9 algo<\/div>\n<div>que nos envolve e nos domina a ponto de nos levar a matar ou morrer. Lenin dizia: &#8220;Os<\/div>\n<div>fatos s\u00e3o teimosos, mas, na realidade, as id\u00e9ias s\u00e3o ainda mais teimosas do que os fatos e<\/div>\n<div>resistem aos fatos durante muito tempo&#8221;. Portanto, o problema do conhecimento n\u00e3o deve<\/div>\n<div>ser um problema restrito aos fil\u00f3sofos. \u00c9 um problema de todos e cada um deve lev\u00e1-lo em<\/div>\n<div>conta desde muito cedo e explorar as possibilidades de erro para ter condi\u00e7\u00f5es de ver a<\/div>\n<div>realidade, porque n\u00e3o existe receita milagrosa.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">O Conhecimento Pertinente.<\/font><\/b><\/div>\n<div>O segundo buraco negro \u00e9 que n\u00e3o ensinamos as condi\u00e7\u00f5es de um conhecimento<\/div>\n<div>pertinente, isto \u00e9, de um conhecimento que n\u00e3o mutila o seu objeto. N\u00f3s seguimos, em<\/div>\n<div>primeiro lugar, um mundo formado pelo ensino disciplinar. \u00c9 evidente que as disciplinas<\/div>\n<div>de toda ordem ajudaram o avan\u00e7o do conhecimento e s\u00e3o insubstitu\u00edveis. O que existe<\/div>\n<div>entre as disciplinas \u00e9 invis\u00edvel e as conex\u00f5es entre elas tamb\u00e9m s\u00e3o invis\u00edveis. Mas isto n\u00e3o<\/div>\n<div>significa que seja necess\u00e1rio conhecer somente uma parte da realidade. \u00c9 preciso ter uma<\/div>\n<div>vis\u00e3o capaz de situar o conjunto. \u00c9 necess\u00e1rio dizer que n\u00e3o \u00e9 a quantidade de<\/div>\n<div>informa\u00e7\u00f5es, nem a sofistica\u00e7\u00e3o em Matem\u00e1tica que podem dar sozinhas um conhecimento<\/div>\n<div>pertinente, mas sim a capacidade de colocar o conhecimento no contexto.<\/div>\n<div>A economia, que \u00e9 das ci\u00eancias humanas, a mais avan\u00e7ada, a mais sofisticada, tem<\/div>\n<div>um poder muito fraco e erra muitas vezes nas suas previs\u00f5es, porque est\u00e1 ensinando de<\/div>\n<div>modo a privilegiar o c\u00e1lculo. Com isso, acaba esquecendo os aspectos humanos, como o<\/div>\n<div>sentimento, a paix\u00e3o, o desejo, o temor, o medo. Quando h\u00e1 um problema na bolsa, quando<\/div>\n<div>as a\u00e7\u00f5es despencam, aparece um fator totalmente irracional que \u00e9 o p\u00e2nico, e que,<\/div>\n<div>freq\u00fcentemente, faz com que o fator econ\u00f4mico tenha a ver com o humano, ligando-se,<\/div>\n<div>assim, \u00e0 sociedade, \u00e0 psicologia, \u00e0 mitologia. Essa realidade social \u00e9 multidimensional e o<\/div>\n<div>econ\u00f4mico \u00e9 apenas uma dimens\u00e3o dessa sociedade. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio contextualizar<\/div>\n<div>todos os dados.<\/div>\n<div>Se n\u00e3o houver, por exemplo, a contextualiza\u00e7\u00e3o dos conhecimentos hist\u00f3ricos e<\/div>\n<div>geogr\u00e1ficos, cada vez que aparecer um acontecimento novo que nos fizer descobrir uma<\/div>\n<div>regi\u00e3o desconhecida, como o Kosovo, o Timor ou Serra Leoa, n\u00e3o entenderemos nada.<\/div>\n<div>Portanto, o ensino por disciplina, fragmentado e dividido, impede a capacidade natural que<\/div>\n<div>o esp\u00edrito tem de contextualizar. E \u00e9 essa capacidade que deve ser estimulada e<\/div>\n<div>desenvolvida pelo ensino, a de ligar as partes ao todo e o todo \u00e0s partes. Pascal dizia, j\u00e1 no<\/div>\n<div>s\u00e9culo XVII: &#8220;N\u00e3o se pode conhecer as partes sem conhecer o todo, nem conhecer o todo<\/div>\n<div>sem conhecer as partes&#8221;.<\/div>\n<div>O contexto tem necessidade, ele mesmo, de seu pr\u00f3prio contexto. E o<\/div>\n<div>conhecimento, atualmente, deve se referir ao global. Os acidentes locais t\u00eam repercuss\u00e3o<\/div>\n<div>sobre o conjunto e as a\u00e7\u00f5es do conjunto sobre os acidentes locais. Isso foi comprovado<\/div>\n<div>depois da guerra do Iraque, da guerra da Iugosl\u00e1via e, atualmente, pode ser verificado com<\/div>\n<div>o conflito do Oriente M\u00e9dio.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">A Identidade Humana.<\/font><\/b><\/div>\n<div>O terceiro aspecto \u00e9 a identidade humana. \u00c9 curioso que nossa identidade seja<\/div>\n<div>completamente ignorada pelos programas de instru\u00e7\u00e3o. Podemos perceber alguns aspectos<\/div>\n<div>do homem biol\u00f3gico em Biologia, alguns aspectos psicol\u00f3gicos em Psicologia, mas a<\/div>\n<div>realidade humana \u00e9 indecifr\u00e1vel. Somos indiv\u00edduos de uma sociedade e fazemos parte de<\/div>\n<div>uma esp\u00e9cie. Mas, ao mesmo tempo em que fazemos parte de uma sociedade, temos a<\/div>\n<div>sociedade como parte de n\u00f3s, pois desde o nosso nascimento a cultura se nos imprime. N\u00f3s<\/div>\n<div>somos de uma esp\u00e9cie, mas ao mesmo tempo a esp\u00e9cie \u00e9 em n\u00f3s e depende de n\u00f3s. Se nos<\/div>\n<div>recusamos a nos relacionar sexualmente com um parceiro de outro sexo, acabamos com a<\/div>\n<div>esp\u00e9cie. Portanto, o relacionamento entre indiv\u00edduo-sociedade-esp\u00e9cie \u00e9 como a trindade<\/div>\n<div>divina, um dos termos gera o outro e um se encontra no outro. A realidade humana \u00e9<\/div>\n<div>trinit\u00e1ria.<\/div>\n<div>Eu acredito poss\u00edvel a converg\u00eancia entre todas as ci\u00eancias e a identidade humana.<\/div>\n<div>Um certo n\u00famero de agrupamentos disciplinares vai favorecer esta converg\u00eancia. \u00c9<\/div>\n<div>necess\u00e1rio reconhecer que na segunda metade do s\u00e9culo XX, houve uma revolu\u00e7\u00e3o<\/div>\n<div>cient\u00edfica, reagrupando as disciplinas em ci\u00eancias pluridisciplinares. Assim, h\u00e1 a<\/div>\n<div>cosmologia, as ci\u00eancias da terra, a ecologia e a pr\u00e9-hist\u00f3ria.<\/div>\n<div>Tome-se como exemplo a cosmologia, que, efetivamente, utiliza a microf\u00edsica, os<\/div>\n<div>aceleradores de part\u00edculas para imaginar os primeiros segundos do universo. Ela utiliza a<\/div>\n<div>observa\u00e7\u00e3o e pratica uma reflex\u00e3o filos\u00f3fica sobre o mundo, assim como fizeram Hubert<\/div>\n<div>Reeves, Hawkins, Michel Cass\u00e9 e tantos outros. Eles refletem sobre o universo incr\u00edvel no<\/div>\n<div>qual vivemos. Mas o que \u00e9 importante para a identidade humana \u00e9 saber que estamos neste<\/div>\n<div>min\u00fasculo planeta perdidos no cosmos. Nossa miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais a de conquistar o mundo<\/div>\n<div>como acreditava Descartes, Bacon e Marx. Nossa miss\u00e3o se transformou em civilizar o<\/div>\n<div>pequeno planeta em que vivemos.<\/div>\n<div>Por outro lado, as ci\u00eancias da terra nos inscrevem neste planeta formado por<\/div>\n<div>fragmentos c\u00f3smicos, resultados de uma explos\u00e3o de s\u00f3is anteriores. Resta saber como<\/div>\n<div>estes fragmentos reunidos e aglomerados puderam criar uma tal organiza\u00e7\u00e3o, uma auto-organiza\u00e7\u00e3o, para nos dar este planeta. \u00c9 necess\u00e1rio mostrar que ele gerou a vida, e a n\u00f3s<\/div>\n<div>somos, filhos da vida.<\/div>\n<div>A biologia, com a teoria da evolu\u00e7\u00e3o, nos prova como trazemos dentro de n\u00f3s,<\/div>\n<div>efetivamente, o processo de desenvolvimento da primeira c\u00e9lula vivente, que se<\/div>\n<div>multiplicou e se diversificou.<\/div>\n<div>Quando sonhamos com nossa identidade, devemos pensar que temos part\u00edculas que<\/div>\n<div>nasceram no despertar do universo. Temos \u00e1tomos de carbono que se formaram em s\u00f3is<\/div>\n<div>anteriores ao nosso, pelo encontro de tr\u00eas n\u00facleos de h\u00e9lio que se constitu\u00edram em<\/div>\n<div>mol\u00e9culas e neuromol\u00e9culas na terra. Somos todos filhos do cosmos, mas nos<\/div>\n<div>transformamos em estranhos atrav\u00e9s de nosso conhecimento e de nossa cultura.<\/div>\n<div>Portanto, \u00e9 preciso ensinar a unidade dos tr\u00eas destinos, porque somos indiv\u00edduos,<\/div>\n<div>mas como indiv\u00edduos somos, cada um, um fragmento da sociedade e da esp\u00e9cie Homo<\/div>\n<div>sapiens,\u00e0 qual pertencemos. E o importante \u00e9 que somos uma parte da sociedade, uma<\/div>\n<div>parte da esp\u00e9cie, seres desenvolvidos sem os quais a sociedade n\u00e3o existe. A sociedade s\u00f3<\/div>\n<div>vive com essas intera\u00e7\u00f5es.<\/div>\n<div>\u00c8 importante, tamb\u00e9m, mostrar que, ao mesmo tempo em que o ser humano \u00e9<\/div>\n<div>m\u00faltiplo, ele \u00e9 parte de uma unidade. Sua estrutura mental faz parte da complexidade<\/div>\n<div>humana. Portanto, ou vemos a unidade do g\u00eanero e esquecemos a diversidade das culturas<\/div>\n<div>e dos indiv\u00edduos, ou vemos a diversidade das culturas e n\u00e3o vemos a unidade do ser<\/div>\n<div>humano.<\/div>\n<div>Esse problema vem causando pol\u00eamicas desde o s\u00e9culo XVIII, quando Voltaire<\/div>\n<div>disse: &#8220;Os chineses s\u00e3o iguais a n\u00f3s, t\u00eam paix\u00f5es, choram&#8221;. E Herbart, o pensador alem\u00e3o,<\/div>\n<div>afirmou: &#8220;Entre uma cultura e outra n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, os seres s\u00e3o diferentes&#8221;. Os dois<\/div>\n<div>tinham raz\u00e3o, mas na realidade essas duas verdades t\u00eam que ser articuladas. N\u00f3s temos os<\/div>\n<div>elementos gen\u00e9ticos da nossa diversidade e, \u00e9 claro, os elementos culturais da nossa<\/div>\n<div>diversidade.<\/div>\n<div>\u00c8 preciso lembrar que rir, chorar, sorrir, n\u00e3o s\u00e3o atos aprendidos ao longo da<\/div>\n<div>educa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o inatos, mas modulados de acordo com a educa\u00e7\u00e3o. Heigerfeld fez uma<\/div>\n<div>observa\u00e7\u00e3o sobre uma jovem surda-muda de nascen\u00e7a que ria, chorava e sorria.<\/div>\n<div>Atualmente, estudos demonstram que o feto come\u00e7a a sorrir no ventre da m\u00e3e. Talvez<\/div>\n<div>porque n\u00e3o saiba o que o espera depois&#8230; Mas isso nos permite entender a nossa realidade,<\/div>\n<div>nossa diversidade e singularidade.<\/div>\n<div>Chegamos, ent\u00e3o, ao ensino da literatura e da poesia. Elas n\u00e3o devem ser<\/div>\n<div>consideradas como secund\u00e1rias e n\u00e3o essenciais. A literatura \u00e9 para os adolescentes uma<\/div>\n<div>escola de vida e um meio para se adquirir conhecimentos. As ci\u00eancias sociais v\u00eaem<\/div>\n<div>categorias e n\u00e3o indiv\u00edduos sujeitos a emo\u00e7\u00f5es, paix\u00f5es e desejos. A literatura, ao<\/div>\n<div>contr\u00e1rio, como nos grandes romances de Tolstoi, aborda o meio social, o familiar, o<\/div>\n<div>hist\u00f3rico e o concreto das rela\u00e7\u00f5es humanas com uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria.<\/div>\n<div>Podemos dizer que as telenovelas tamb\u00e9mnos falam sobre problemas fundamentais<\/div>\n<div>do homem; o amor, a morte, a doen\u00e7a, o ci\u00fame, a ambi\u00e7\u00e3o, o dinheiro. Temos que entender<\/div>\n<div>que todos esses elementos s\u00e3o necess\u00e1rios para entender que a vida n\u00e3o \u00e9 aprendida<\/div>\n<div>somente nas ci\u00eancias formais. E a literatura tem a vantagem de refletir sobre a<\/div>\n<div>complexidade do ser humano e sobre a quantidade incr\u00edvel de seus sonhos. Como James<\/div>\n<div>Joyce, por exemplo, que, ao criar um personagem, mostrava que uma pessoa pode ter<\/div>\n<div>sentimentos totalmente diversos. Ou como o her\u00f3i de Dostoievski, em O Idiotaque n\u00e3o<\/div>\n<div>sabe se a jovem est\u00e1 apaixonada por ele e ao fim da trama, depois de ter sofrido muito,<\/div>\n<div>encontra um amigo que lhe diz: &#8220;mas que imbecil voc\u00ea \u00e9, n\u00e3o entendeu que ela o ama&#8221;.<\/div>\n<div>Isto pode acontecer com qualquer pessoa, \u00e9 a dificuldade de saber o que o outro pensa e<\/div>\n<div>sente.<\/div>\n<div>Marcel Proust mostrou, em Um amor de Swan, o que ele chamava de intermit\u00eancias<\/div>\n<div>do cora\u00e7\u00e3o, ou seja, que uma pessoa pode se apaixonar, esquecer-se da pessoa desejada e<\/div>\n<div>voltar a am\u00e1-la. Neste romance o her\u00f3i sofre durante anos de ci\u00fames por causa de uma<\/div>\n<div>mulher e quando ele j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 mais apaixonado, diz: &#8220;mas eu sofri tanto por uma mulher<\/div>\n<div>que n\u00e3o me amava e que nem era meu tipo&#8221;.<\/div>\n<div>Podemos, ent\u00e3o, compreender a complexidade humana atrav\u00e9s da literatura. A<\/div>\n<div>poesia nos ensina a qualidade po\u00e9tica da vida, essa qualidade que n\u00f3s sentimos diante de<\/div>\n<div>fatos da realidade. Como, por exemplo, os espet\u00e1culos da natureza: o c\u00e9u de Bras\u00edlia que \u00e9<\/div>\n<div>t\u00e3o bonito. A vida n\u00e3o deve ser uma prosa que se fa\u00e7a por obriga\u00e7\u00e3o. A vida \u00e9 viver<\/div>\n<div>poeticamente na paix\u00e3o, no entusiasmo.<\/div>\n<div>Para que isso aconte\u00e7a, devemos fazer convergir todas as disciplinas conhecidas<\/div>\n<div>para a identidade e para a condi\u00e7\u00e3o humana, ressaltando a no\u00e7\u00e3o de homo sapiens; o<\/div>\n<div>homem racional e fazedor de ferramentas, que \u00e9, ao mesmo tempo, louco e est\u00e1 entre o<\/div>\n<div>del\u00edrio e o equil\u00edbrio, nesse mundo de paix\u00f5es em que o amor \u00e9 o c\u00famulo da loucura e da<\/div>\n<div>sabedoria.<\/div>\n<div>O homem n\u00e3o se define somente pelo trabalho, mas tamb\u00e9m pelo jogo. N\u00e3o s\u00f3 as<\/div>\n<div>crian\u00e7as, como tamb\u00e9m os adultos gostam de jogar. Por isso vemos partidas de futebol.<\/div>\n<div>N\u00f3s somos Homo ludens,al\u00e9m de Homo economicus.N\u00e3o vivemos s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o do<\/div>\n<div>interesse econ\u00f4mico. H\u00e1, tamb\u00e9m, o homo mitologicus, isto \u00e9, vivemos em fun\u00e7\u00e3o de mitos<\/div>\n<div>e cren\u00e7as.<\/div>\n<div>Enfim o homem \u00e9 prosaico e po\u00e9tico. Como dizia H\u00f6lderling: &#8220;O homem habita<\/div>\n<div>poeticamente na terra, mas tamb\u00e9m prosaicamente e se a prosa n\u00e3o existisse, n\u00e3o<\/div>\n<div>poder\u00edamos desfrutar da poesia&#8221;.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">A Compreens\u00e3o Humana.<\/font><\/b><\/div>\n<div>O quarto aspecto \u00e9 sobre a compreens\u00e3o humana. Nunca se ensina sobre como<\/div>\n<div>compreender uns aos outros, como compreender nossos vizinhos, nossos parentes, nossos<\/div>\n<div>pais. O que significa compreender?<\/div>\n<div>A palavra compreender vem do latim, compreendere, que quer dizer: colocar junto<\/div>\n<div>todos os elementos de explica\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00e3o ter somente um elemento de explica\u00e7\u00e3o,<\/div>\n<div>mas diversos. Mas a compreens\u00e3o humana vai al\u00e9m disso, porque, na realidade, ela<\/div>\n<div>comporta uma parte de empatia e identifica\u00e7\u00e3o. O que faz com que se compreenda algu\u00e9m<\/div>\n<div>que chora, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 analisar as l\u00e1grimas no microsc\u00f3pio, mas saber o significado<\/div>\n<div>da dor, da emo\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 preciso compreender a compaix\u00e3o, que significa sofrer<\/div>\n<div>junto. \u00c9 isto que permite a verdadeira comunica\u00e7\u00e3o humana.<\/div>\n<div>A grande inimiga da compreens\u00e3o \u00e9 a falta de preocupa\u00e7\u00e3o em ensin\u00e1-la. Na<\/div>\n<div>realidade, isto est\u00e1 se agravando, j\u00e1 que o individualismo ganha um espa\u00e7o cada vez maior.<\/div>\n<div>Estamos vivendo numa sociedade individualista, que favorece o sentido de<\/div>\n<div>responsabilidade individual, que desenvolve o egocentrismo, o ego\u00edsmo e que,<\/div>\n<div>consequentemente, alimenta a autojustifica\u00e7\u00e3o e a rejei\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo.<\/div>\n<div>A raiva leva \u00e0 vontade de eliminar o outro e tudo aquilo que possa aborrecer. De<\/div>\n<div>certa maneira, isto favorece ao que os ingleses chamam de self-deception, isto \u00e9, mentir a si<\/div>\n<div>mesmo, pois o egocentrismo vai tramando sempre o negativo e esquecendo dos outros<\/div>\n<div>elementos.<\/div>\n<div>A redu\u00e7\u00e3o do outro, a vis\u00e3o unilateral e a falta de percep\u00e7\u00e3o sobre a complexidade<\/div>\n<div>humana s\u00e3o os grandes empecilhos da compreens\u00e3o. Outro aspecto da incompreens\u00e3o \u00e9 a<\/div>\n<div>indiferen\u00e7a. E, por este lado, \u00e9 interessante abordar o cinema, que os intelectuais tanto<\/div>\n<div>acusam de alienante. Na verdade, o cinema \u00e9 uma arte que nos ensina a superar a<\/div>\n<div>indiferen\u00e7a, pois transforma em her\u00f3is os invis\u00edveis sociais, ensinando-nos a v\u00ea-los por um<\/div>\n<div>outro prisma. Charlie Chaplin, por exemplo,sensibilizou plat\u00e9ias inteiras com o<\/div>\n<div>personagem do vagabundo. Outro exemplo \u00e9 Coppola, que popularizou os chefes da M\u00e1fia<\/div>\n<div>com &#8220;O Chef\u00e3o&#8221;. No teatro, temos a complexidade dos personagens de Shakspeare: reis,<\/div>\n<div>gangsters, assassinos e ditadores. No cinema, como na filosofia de Her\u00e1clito:<\/div>\n<div>&#8220;Despertados, eles dormem&#8221;. Estamos adormecidos, apesar de despertos, pois diante da<\/div>\n<div>realidade t\u00e3o complexa, mal percebemos o que se passa ao nosso redor.<\/div>\n<div>Por isso, \u00e9 importante este quarto ponto: compreender n\u00e3o s\u00f3 os outros como a si<\/div>\n<div>mesmo, a necessidade de se auto-examinar, de analisar a autojustifica\u00e7\u00e3o, pois o mundo<\/div>\n<div>est\u00e1 cada vez mais devastado pela incompreens\u00e3o, que \u00e9 o c\u00e2ncer do relacionamento entre<\/div>\n<div>os seres humanos.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">A Incerteza.<\/font><\/b><\/div>\n<div>O quinto aspecto \u00e9 a incerteza. Apesar de, nas escolas, ensinar-se somente as<\/div>\n<div>certezas, como a gravita\u00e7\u00e3o de Newton e o eletromagnetismo, atualmente a ci\u00eancia tem<\/div>\n<div>abandonado determinados elementos mec\u00e2nicos para assimilar o jogo entre certeza e<\/div>\n<div>incerteza, da micro-f\u00edsica \u00e0s ci\u00eancias humanas. \u00c9 necess\u00e1rio mostrar em todos os dom\u00ednios,<\/div>\n<div>sobretudo na hist\u00f3ria, o surgimento do inesperado. Eur\u00edpides dizia no fim de tr\u00eas de suas<\/div>\n<div>trag\u00e9dias que: &#8220;os deuses nos causam grandes surpresas, n\u00e3o \u00e9 o esperado que chega e sim<\/div>\n<div>o inesperado que nos acontece&#8221;. \u00c9 a velha id\u00e9ia de 2.500 anos, que n\u00f3s esquecemos<\/div>\n<div>sempre.<\/div>\n<div>As ci\u00eancias mant\u00eam di\u00e1logos entre dados hipot\u00e9ticos e outros dados que parecem<\/div>\n<div>mais prov\u00e1veis. Os processos f\u00edsicos, assim como outros tamb\u00e9m, pressup\u00f5em varia\u00e7\u00f5es<\/div>\n<div>que nos levam \u00e0 desordem ca\u00f3tica ou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma nova organiza\u00e7\u00e3o, como nas teorias<\/div>\n<div>sobre a incerteza de Prigogine, baseadas nos exemplos dos turbilh\u00f5es de Born. Analisando<\/div>\n<div>retroativamente a hist\u00f3ria da vida, constata-se que ela n\u00e3o foi linear, que n\u00e3o teve uma<\/div>\n<div>evolu\u00e7\u00e3o de baixo para cima. A evolu\u00e7\u00e3o segundo Darwin foi uma evolu\u00e7\u00e3o composta de<\/div>\n<div>ramifica\u00e7\u00f5es, a exemplo do mundo vegetal e o mundo animal.<\/div>\n<div>O homem vem de uma dessas ramifica\u00e7\u00f5es e conseguiu chegar \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0<\/div>\n<div>intelig\u00eancia, mas n\u00e3o somos a meta da evolu\u00e7\u00e3o, fazemos parte desse processo. A hist\u00f3ria<\/div>\n<div>da vida foi, na verdade, marcada por cat\u00e1strofes.<\/div>\n<div>No fim da era secund\u00e1ria, a queda do aster\u00f3ide que matou os dinossauros e<\/div>\n<div>ressecou a vegeta\u00e7\u00e3o desses animais enormes, matando-os de fome deu oportunidade \u00e0<\/div>\n<div>prolifera\u00e7\u00e3o dos mam\u00edferos. Assim tamb\u00e9m ocorreu com as sociedades humanas. Todas<\/div>\n<div>sofreram o colapso por uma raz\u00e3o ou outra. Nem mesmo o imp\u00e9rio romano, que parecia<\/div>\n<div>eterno, conseguiu sobreviver. As sociedades andinas, que eram mais potentes que seus<\/div>\n<div>colonizadores espanh\u00f3is e cujas capitais eram muita mais ricas que Paris, Madri ou Lisboa,<\/div>\n<div>foram destru\u00eddas por espanh\u00f3is que chegaram com cavalos e armas desconhecidas.<\/div>\n<div>As duas guerras mundiais destru\u00edram muito na metade do s\u00e9culo XX, depois da<\/div>\n<div>Primeira Guerra Mundial. Tr\u00eas grandes imp\u00e9rios da \u00e9poca, por exemplo, o romano-otomano, o austro-h\u00fangaro e o sovi\u00e9tico, desapareceram.<\/div>\n<div>Isto nos demonstra a necessidade de ensinar o que chamamos de ecologia da a\u00e7\u00e3o: a<\/div>\n<div>atitude que se toma quando uma a\u00e7\u00e3o \u00e9 desencadeada e escapa ao desejo e \u00e0s inten\u00e7\u00f5es<\/div>\n<div>daquele que a provocou, desencadeando influ\u00eancias m\u00faltiplas que podem desvi\u00e1-la at\u00e9 para<\/div>\n<div>o sentido oposto ao intencionado.<\/div>\n<div>A hist\u00f3ria humana est\u00e1 repleta de exemplos dessa natureza. O mais evidente no<\/div>\n<div>final do s\u00e9culo XX foi o projeto pol\u00edtico de Gorbatchev, que pretendeu reformar o sistema<\/div>\n<div>pol\u00edtico da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, mas acabouprovocando o come\u00e7o de sua pr\u00f3pria<\/div>\n<div>desagrega\u00e7\u00e3o e implos\u00e3o.<\/div>\n<div>Assim tem acontecido em todas as etapas da hist\u00f3ria. O inesperado aconteceu e<\/div>\n<div>acontecer\u00e1, porque n\u00e3o temos futuro e n\u00e3o temos certeza nenhuma do futuro. As previs\u00f5es<\/div>\n<div>n\u00e3o foram concretizadas, n\u00e3o existe determinismo do progresso. Os esp\u00edritos, portanto, t\u00eam<\/div>\n<div>que ser fortes e armados para enfrentarem essa incerteza e n\u00e3o se desencorajarem.<\/div>\n<div>Essa incerteza \u00e9 uma incita\u00e7\u00e3o \u00e0 coragem. A aventura humana n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel, mas<\/div>\n<div>o imprevisto n\u00e3o \u00e9 totalmente desconhecido. Somente agora se admite que n\u00e3o se conhece<\/div>\n<div>o destino da aventura humana. \u00c9 necess\u00e1rio tomar consci\u00eancia de que as futuras decis\u00f5es<\/div>\n<div>devem ser tomadas contando com o risco do erro e estabelecer estrat\u00e9gias que possam ser<\/div>\n<div>corrigidas no processo da a\u00e7\u00e3o, a partir dos imprevistos e das informa\u00e7\u00f5es que se tem.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">A Condi\u00e7\u00e3o Planet\u00e1ria.<\/font><\/b><\/div>\n<div>O sexto aspecto \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, sobretudo na era da globaliza\u00e7\u00e3o no<\/div>\n<div>s\u00e9culo XX &#8211; que come\u00e7ou, na verdade no s\u00e9culo XVI com a coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica e a<\/div>\n<div>interliga\u00e7\u00e3o de toda a humanidade. Esse fen\u00f4meno que estamos vivendo hoje, em que tudo<\/div>\n<div>est\u00e1 conectado, \u00e9 um outro aspecto que o ensino ainda n\u00e3o tocou, assim como o planeta e<\/div>\n<div>seus problemas, a acelera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, a quantidade de informa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conseguimos<\/div>\n<div>processar e organizar.<\/div>\n<div>Este ponto \u00e9 importante porque existe, neste momento, um destino comum para<\/div>\n<div>todos os seres humanos. O crescimento da amea\u00e7a letal se expande em vez de diminuir: a<\/div>\n<div>amea\u00e7a nuclear, a amea\u00e7a ecol\u00f3gica, a degrada\u00e7\u00e3o da vida planet\u00e1ria. Ainda que haja uma<\/div>\n<div>tomada de consci\u00eancia de todos esses problemas, ela \u00e9 t\u00edmida e n\u00e3o conduziu ainda a<\/div>\n<div>nenhuma decis\u00e3o efetiva. Por isso, faz-se urgente a constru\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia<\/div>\n<div>planet\u00e1ria.<\/div>\n<div>Conhecer o nosso planeta \u00e9 dif\u00edcil: os processos de todas as ordens &#8211; econ\u00f4micos,<\/div>\n<div>ideol\u00f3gicos e sociais &#8211; est\u00e3o de tal maneira imbricados e s\u00e3o t\u00e3o complexos, que<\/div>\n<div>compreend\u00ea-los \u00e9 um verdadeiro desafio para o conhecimento. Ortega y Gasset dizia: &#8220;n\u00e3o<\/div>\n<div>sabemos o que acontece, isto \u00e9 o que acontece&#8221;.<\/div>\n<div>\u00c9 necess\u00e1ria uma certa dist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o ao imediato para podermos<\/div>\n<div>compreend\u00ea-lo. E, atualmente, dada a acelera\u00e7\u00e3o e a complexidade do mundo, \u00e9 quase<\/div>\n<div>imposs\u00edvel. Mas, faz-se necess\u00e1rio ressaltar, \u00e9 esta a dificuldade. \u00c9 necess\u00e1rio ensinar que<\/div>\n<div>n\u00e3o \u00e9 suficiente reduzir a um s\u00f3 a complexidade dos problemas importantes do planeta,<\/div>\n<div>como a demografia, ou a escassez de alimentos, ou a bomba at\u00f4mica, ou a ecologia. Os<\/div>\n<div>problemas est\u00e3o todos amarrados uns aos outros.<\/div>\n<div>Daqui para frente, existem, sobretudo, os perigos de vida e morte para a<\/div>\n<div>humanidade, como a amea\u00e7a da arma nuclear, como a amea\u00e7a ecol\u00f3gica, como o<\/div>\n<div>desencadeamento dos nacionalismos acentuadospelas religi\u00f5es. \u00c9 preciso mostrar que a<\/div>\n<div>humanidade vive agora uma comunidade de destino comum.<\/div>\n<div><b><font size=\"5\">A Antropo-\u00e9tica. <\/font><\/b><\/div>\n<div>O \u00faltimo aspecto \u00e9 o que vou chamar de antropo-\u00e9tico, porque os problemas da<\/div>\n<div>moral e da \u00e9tica diferem a depender da cultura e da natureza humana. Existe um aspecto<\/div>\n<div>individual, outro social e outro gen\u00e9tico, diria de esp\u00e9cie. Algo como uma trindade em que<\/div>\n<div>as termina\u00e7\u00f5es s\u00e3o ligadas: a antropo-\u00e9tica. Cabe ao ser humano desenvolver, ao mesmo<\/div>\n<div>tempo, a \u00e9tica e a autonomia pessoal (as nossas responsabilidades pessoais), al\u00e9m de<\/div>\n<div>desenvolver a participa\u00e7\u00e3o social (as responsabilidades sociais), ou seja, a nossa<\/div>\n<div>participa\u00e7\u00e3o no g\u00eanero humano, pois compartilhamos um destino comum.<\/div>\n<div>A antropo-\u00e9tica tem um lado social que n\u00e3o tem sentido se n\u00e3o for na democracia,<\/div>\n<div>porque a democracia permite uma rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-sociedade e nela o cidad\u00e3o deve se<\/div>\n<div>sentir solid\u00e1rio e respons\u00e1vel. A democracia permite aos cidad\u00e3os exercerem suas<\/div>\n<div>responsabilidades atrav\u00e9s do voto. Somente assim \u00e9 poss\u00edvel fazer com que o poder<\/div>\n<div>circule, de forma que aquele que foi uma vez controlado, ter\u00e1 a chance de controlar.<\/div>\n<div>Porque a democracia \u00e9, por princ\u00edpio, um exerc\u00edcio de controle.<\/div>\n<div>N\u00e3o existe, evidentemente, democracia absoluta. Ela \u00e9 sempre incompleta. Mas<\/div>\n<div>sabemos que vivemos em uma \u00e9poca de regress\u00e3o democr\u00e1tica, pois o poder tecnol\u00f3gico<\/div>\n<div>agrava cada vez mais os problemas econ\u00f4micos. Na verdade, o \u00e9 importante orientar e<\/div>\n<div>guiar essa tomada de consci\u00eancia social que leva \u00e0 cidadania, para que o indiv\u00edduo possa<\/div>\n<div>exercer sua responsabilidade.<\/div>\n<div>Por outro lado, a \u00e9tica do ser humano est\u00e1 se desenvolvendo atrav\u00e9s das associa\u00e7\u00f5es<\/div>\n<div>n\u00e3o-governamentais, como os M\u00e9dicos Sem Fronteiras, o Greenpeace, a Alian\u00e7a pelo<\/div>\n<div>Mundo Solid\u00e1rio e tantas outras que trabalham acima de entidades religiosas, pol\u00edticas ou<\/div>\n<div>de Estados nacionais, assistindo aos pa\u00edses ou \u00e0s na\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo amea\u00e7adas ou em<\/div>\n<div>graves conflitos. Devemos conscientizar a todos sobre essas causas t\u00e3o importantes, pois<\/div>\n<div>estamos falando do destino da humanidade.<\/div>\n<div>Seremos capazes de civilizar a terra e fazer com que ela se torne uma verdadeira<\/div>\n<div>p\u00e1tria? Estes s\u00e3o os sete saberes necess\u00e1rios ao ensino. E n\u00e3o digo isso para modificar<\/div>\n<div>programas. Na minha opini\u00e3o, n\u00e3o temos que destruir disciplinas, mas sim integr\u00e1-las,<\/div>\n<div>reuni-las em uma ci\u00eancia como, por exemplo, as ci\u00eancias da terra (a sismologia, a<\/div>\n<div>vulcanologia, a meteorologia), todas elas articuladas em uma concep\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da terra.<\/div>\n<div>Penso que tudo deva estar integrado para permitir uma mudan\u00e7a de pensamento;<\/div>\n<div>para que se transforme a concep\u00e7\u00e3o fragmentada e dividida do mundo, que impede a vis\u00e3o<\/div>\n<div>total da realidade. Essa vis\u00e3o fragmentada faz com que os problemas permane\u00e7am<\/div>\n<div>invis\u00edveis para muitos, principalmente para muitos governantes.<\/div>\n<div>E hoje que o planeta j\u00e1 est\u00e1, ao mesmo tempo, unido e fragmentado, come\u00e7a a se<\/div>\n<div>desenvolver uma \u00e9tica do g\u00eanero humano, para que possamos superar esse estado de caos e<\/div>\n<p>&#160;<\/p>\n<div>come\u00e7ar, talvez, a civilizar a terra.<\/div>\n<\/div>\n<p>&#160;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os sete saberes necess\u00e1rios\u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro. Edgar Morin. &#160; Os sete saberes necess\u00e1rios \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do futuro n\u00e3o t\u00eam nenhum programa educativo, escolar ou universit\u00e1rio. Ali\u00e1s, n\u00e3o est\u00e3o concentrados no prim\u00e1rio, nem no secund\u00e1rio, nem no ensino universit\u00e1rio, mas abordam problemas espec\u00edficos para cada um desses n\u00edveis. 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